nov 20 2007

Perfil

Publicado por

Se supone que esto es para que yo ponga información personal de mi. Podría empezar ahora un interminable proceso de taggeado que iría de la literatura a la sociología, de las tecnologías de la comunicación a la mística posmoderna, de los abismos a los desiertos, de las palabras que son gotas de silencio en un oceano de oscuridad aos vagalumes twiling en el archipiélago… pero no acabaría nunca.  Si navegáis un rato entre los posts (viejos y nuevos) seguro que os configuráis un retrato-robot mucho más interesante. Y para asuntos académicos o profesionales, os remito al blog de la universidad que tengo como enlace. Aquí sólo estoy de cachondeito: con mis libros, mis películas, mis palabras… lo típico que se puede encontrar en el blog de un palabrodicto autótrofo. Pero ya que habéis llegado hasta aquí, y para no volver de manos vacías, un regalo:

Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos, in “Poemas”

2 comentarios

2 comentarios en “Perfil”

  1. chpoel 06 oct 2010 a las 10:55

    julio, julio, julio…

  2. Julioel 07 oct 2010 a las 18:47

    ¡Yep Pau! que weno tu por aquí… ¿Como va todo?

    No sé por qué no se me abre tu blog… ¿está todo correcto?

Trackback URI | Comentarios RSS

Escribe un comentario